terça-feira, 26 de novembro de 2024

Na minha época

 

“Na minha época é que era bom”. Será que podemos enumerar os problemas dessa frase? Primeiro: se você está vivo, a sua época é hoje. Atualize-se. Segundo: antigamente, era bom pra quem? Pras mulheres? Pros negros? Pros pobres? Duvido muito. Apesar de todos os problemas, devemos reconhecer que as lutas pelos direitos e os discursos de igualdade e valorização das diferenças avançaram muito. E ainda há um longo caminho a percorrer. Portanto, cuidado com esse tipo de discurso. Normalmente ele é embasado por preconceitos implícitos e explícitos.

A verdade é que cada época carrega uma série de benefícios e problemas. Por exemplo, como eu já mencionei, hoje em dia existe muito mais tolerância. Porém, também aumentaram os casos de depressão e ansiedade. A Internet aproxima e afasta as pessoas. É possível conversar com quem vive do outro lado do mundo. Em compensação, os diálogos cara a cara são cada vez mais raros, já que todos só sabem olhar para o celular. E por aí vai.

Eu também fico me perguntando se antigamente de fato havia mais solidariedade, mais respeito, mais cultura ou se esse é um passado mítico idealizado para criticar os problemas atuais. No fundo, as questões da humanidade são as mesmas: amor, amizade, trabalho, dinheiro. Só muda a forma como lidamos com isso ao longo das décadas e séculos.

De qualquer forma, não há escolha. O nosso tempo é agora e precisamos vivê-lo da melhor forma possível. Podemos sentir saudade de algumas coisas, lamentar outras, mas isso faz parte. Nos adaptamos, evoluímos, amadurecemos. Com um olhar generoso sobre todas as nossas “épocas” (passado, presente, futuro), pois assim é mais agradável e fácil seguir em frente.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Resenha - O avesso da pele (Jefferson Tenório)

 

Hoje é o Dia da Consciência Negra e nada melhor do que resenhar um livro vencedor do Jabuti com protagonistas negros. Em O avesso da pele, Jefferson Tenório constrói um narrador que usa a segunda pessoa do singular, dirigindo-se ao pai já falecido. Pedro, o narrador, reconstitui a história de seus pais, a partir do que sabe, ouviu falar ou imaginou, como o próprio confessa. Uma história marcada por preconceito, pobreza, sofrimento e alguma alegria, escondida no fundo.

Os pais descobrem, desde muito cedo, o peso social de sua cor de pele. Vale a pena enumerar algumas situações de racismo: o pai é confundido com um bandido, discriminado em uma entrevista de emprego, vítima de piadas racistas da família de uma namorada branca e abordado diversas vezes por policiais sem motivo; a mãe é vítima de violência doméstica com seu primeiro marido, cuja família também a discrimina.

No romance de Jefferson Tenório, o racismo é escancarado, e revolta, mas infelizmente não surpreende, pois trata-se de situações corriqueiras que vemos todos os dias nos jornais e nas ruas. Tudo isso numa linguagem simples, tom poético e abordagem sensível, que leva em conta os sentimentos dos personagens, suas dores e seus prazeres.

O livro chegou a ser censurado numa escola, ainda esse ano, o que nos mostra o quanto ainda temos que avançar em certos debates. Deveria ser leitura obrigatória.

Finalizo a resenha com um trecho que explica o título, uma fala do pai do narrador:

É necessário preservar o avesso, você me disse. Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo. E por mais que sua vida seja medida pela cor, por mais que suas atitudes e modos de viver estejam sob esse domínio, você, de alguma forma, tem de preservar algo que não se encaixa nisso, entende? Pois entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único. E é nesse lugar que estão os afetos. E são esses afetos que nos mantêm vivos.”