domingo, 9 de setembro de 2018

Autoestima


Colocar-se como prioridade é muito mais difícil na prática do que pode parecer. Porque somos educados para ser gentis com os outros, mas nos esquecemos de ser gentis com nós mesmos. Somos acostumados a procurar o amor no outro e esquecemos que o amor já está em nós. Então, acumulamos desilusões por depositar expectativas demais nas pessoas em vez de gastar nossa energia tentando nos tornar melhores. Melhores para nós mesmos e, consequentemente, para os outros. Porque quem se respeita sabe respeitar o outro, quem é sua melhor companhia sabe ser um bom amigo, quem se ama de verdade está cheio de amor para dar. Portanto, colocar-se como prioridade não é egoísmo, é apenas bom senso, é entender que o afeto começa de dentro para fora e só estamos prontos a oferecer aquilo que já possuímos em nós. Construir uma boa autoestima é essencial para não precisarmos mendigar atenção. Trata-se de um trabalho diário, um esforço cotidiano de focar em si, nas suas necessidades, nos seus limites, de reorientar o olhar de modo que nos enxerguemos em primeiro lugar. Assim, naturalmente, nosso humor melhora, nossas reclamações diminuem, nosso coração fica pleno. Cuide-se.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Vida adulta


Há um momento na vida em que nos sentimos adultos, sentimos o peso da vida adulta, com suas desilusões e cansaços. Sim, o adulto é um ser cansado, calejado. “Deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa”. O adulto é um ser sofrido, exaurido. “E qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água”. O adulto é um ser no seu limite. A vida adulta se dá na corda bamba, é um show sem treino, uma corrida contra o tempo. Mas às vezes o adulto esquece que é adulto e se permite irresponsabilidades de adolescente e puerilidades de criança – aí ele se descobre, se desnuda e se torna leve; aí a vida parece valer a pena, por esses pequenos momentos de distração.

domingo, 5 de agosto de 2018

Rotina


É preciso amar a rotina. Acordar todos os dias tendo orgulho de quem se é. Colocar tudo de si em cada momento, por mais simples que seja. É preciso se amar e amar a sua rotina, pois a felicidade mora nos detalhes do cotidiano.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Contradições

Morremos de medo das contradições; do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”; dos paradoxos da linguagem, quando as palavras não conseguem expressar os desejos do corpo ou a expressão facial desmente nosso discurso. Passamos a vida tentando ser coerentes, bem comportados, justos, honestos, fiéis, gentis. Até não aguentar mais. Até enlouquecer. E entrar em contradição.

Não, mas comigo não. Sou diferente. Sou melhor que a maioria. Sou jovem, saudável, feliz, ciente das minhas escolhas. Sei manter minha palavra, meus amigos, meus afazeres, dou conta de tudo. A culpa é dos outros, que não se esforçam o suficiente, não se conhecem, se entregam com uma facilidade absurda. As pessoas são muito imaturas. Não sabem lidar com mais nada. Abandonam seus projetos, sua família, sua rotina. Depois reclamam.

Aí acontece comigo. A realidade, em vez de bater à porta, a escancara de vez. Descobrimos que também somos humanos e falhos. Ficamos doentes, indispostos, precocemente envelhecidos. Perdemos o rumo. Nossa armadura de aço quebra como vidro. Descobrimos que podemos não fazer tanta falta quanto pensávamos, que não desejávamos tanto assim aquele sonho, que o tempo passou e arrastou várias oportunidades para o lixo. Assim, somos obrigados a lidar com nosso lado mais obscuro, a encarar nossas atitudes mais tacanhas, a perceber que o que tanto criticávamos no outro também está presente em nós. Nossas verdades já não são mais tão certas. É preciso recriar nossa identidade. Isso dá trabalho. E o processo envolve uma grande dose de dor.

Nunca estamos preparados para a crise. Ela sempre vem na pior hora e administrá-la, em meio aos outros diversos setores da vida, parece impossível. Mas ela também nos serve de alerta. Conseguimos pontuar melhor nossos limites. Redirecionamos o nosso olhar. Apuramos os ouvidos. Cuidamos da nossa imagem embaçada e redescobrimos, aos poucos, o colorido das coisas. Então, aceitamos finalmente nossas contradições.

Temos o direito à mudança, à inconstância, à instabilidade. Podemos cair e levantar, surgir e desaparecer, organizar e bagunçar. Tudo a seu tempo. A nosso tempo. Ninguém espera por nós, todos se movimentam – cabe a nós nos reposicionarmos na roda. Uma mão se estende enquanto outra se recolhe. Outras portas se abrem quando uma se fecha.

Todas as vozes do mundo têm razão – e estão erradas. Todo método funciona – e falha. Todo planejamento é válido – e imprevisível. Claro, o relativismo absoluto é perigoso e inerte. Mas a certeza incontestável é insana. É preciso entender que o equilíbrio não é um objetivo, e sim um caminho, não uma conquista, mas uma busca. É necessário reaprender a ler o mundo e repontuá-lo a cada dia; permitir-se surpreender e ser surpreendido, iludir-se e decepcionar-se, amar e odiar – às vezes ao mesmo tempo. Os contrastes dão o tom da nossa realidade, repintada a cada mudança de estação.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Otimismo

O otimismo é a minha arma. Uma forma de resistência. Um gesto de rebeldia. Minha ferramenta de luta contra a arbitrariedade da vida. Nesse mundo infeliz, vão ter que engolir a minha indomável felicidade.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Viagem

O que verdadeiramente nos incomoda na falta de controle que temos, conscientemente, sobre as coisas da vida não é o acaso. Não tememos os desastres naturais, os acidentes, o azar, o imprevisto per si. Podemos todos morrer amanhã, mas isso não nos impede de viver o hoje. O que nos impede, de fato, é a nossa consciência culpada. Portanto, a falta de controle sobre as coisas é perfeitamente administrável. O que nos parece insuportável é nossa falta de autocontrole. Como é difícil não saber dominar-se, não prever as próprias reações, não entender os próprios desejos e os desejos do outro! Aceitar isso – a imprevisibilidade sobre o que somos, o que queremos e o que viveremos a partir daí – é causa, a princípio, de uma grande angústia, mas também é, finalmente, uma bela libertação. E não se trata, bem entendido, de uma aceitação passiva, de uma subserviência covarde, mas sim de um gesto de coragem, de uma reação madura frente aos desafios da vida, de um trabalho consciente com as possibilidades de escolha diante da impossibilidade de controle. A tentativa de baixar as expectativas, abrir-se às oportunidades, relaxar corpo e mente permite que sejamos surpreendidos a todo instante pela vida, transformando-a numa grande viagem de (auto)descoberta. Afinal, estamos todos de passagem e o máximo que podemos fazer, entre calmarias e turbulências, paisagens floridas e regiões desérticas, é aproveitar o percurso.