domingo, 22 de novembro de 2020

Esquadrão COVID


Atenção, rapaziada
Bora aglomerar
Seguindo a manada
Pra COVID espalhar

Quem tem medo
Quem tem medo
É coisa de marica
Não tem nenhum segredo
Mais mole que o zika

Fazer festa pode sim
Lotar bar pode também
Num dia de sol assim
Vamo pra praia, meu bem 

É matar e morrer
Pela nossa liberdade
Bota logo pra foder
Essa porra de cidade

Nosso histórico de atleta
É o que vai nos salvar
Vocês é que são pateta
De em casa ficar

Usar máscara certinho
É coisa de viadinho
Penduro logo no queixo
Quer me abraçar eu deixo

Nós não temo paciência
Presse papo de ciência
Por favor tenha a decência
Somo os rei da coerência

Mas pra que tanto alarde
É só uma gripezinha
Vocês é tudo covarde
Parece minha vozinha

Pensa na economia
Somo homi de família
Em defesa da vida
Dos que têm grana na lida

Passa álcool na mão
É quem tem o cu na mão
No meio da confusão
Nós segue o capitão

Matamo o vírus na bala
Ou batemo com a Bíblia
Não precisa de vacina
Nós temo a cloroquina

Nossa bandeira
Jamais será vermelha
Se virou caveira
É porque tá velha

Olha só que legal
O ranking internacional
Agora que tal
O extermínio mundial

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Questão de pele

Queria entender

Por que você me fere

É triste saber

Que é uma questão de pele

Minha pele

Te repele?

Ponha-se no meu lugar

Você tem que batalhar

Pro que eu tenho conquistar

 

Meu ponto de partida

É mais longe do que o seu

Meu ponto de vista

Vai mais longe do que o seu

Seu mundo é limitado

Você vê tudo quadrado

Eu não me sinto julgado

Pois você é o condenado

 

E se sente no direito

De não ter nenhum respeito

Espalhar seu preconceito

Espelhar a ignorância

Tenha santa paciência

Nem um pingo de decência

Parece até demência

Essa sua incoerência

 

Ainda bem

Que não sou seu refém

E vou além

Da sua limitação

Com a minha ação

E a nossa militância

Então faça-me o favor

Do meu valor

Eu que tenho consciência

Você não sabe

Ele não cabe

Na sua caixinha

Tão fechadinha

Pequeninha

De racista

sábado, 14 de novembro de 2020

A Senhora das Moscas

Essa quarentena tem servido pra muita coisa, inclusive pra aprofundar minha relação com os insetos, que, convenhamos, nunca foi muito boa. Tive progressos. Já fiquei amiga das abelhas, interpretei como sinal de sorte uma cigarrinha verde ter pousado no meu dedo... Mas confesso que agora o Universo me testou pra valer! Acho que cheguei na fase do chefão: mandaram uma mosca. Nossa, mas tem coisa pior, você poderia pensar. Barata, por exemplo, é muito mais nojento. Sim, porém, os veganos que me perdoem pela heresia, barata é mais fácil de matar. Ela fica parada ali no cantinho, é questão de oportunidade dar uma chinelada precisa ou afogar a bicha em inseticida.

Agora, mosca? Sério, você já tentou? Deve ser o bicho mais irritante do mundo. Por isso Raul fez aquela música: “Eu sou a sopa que pousou em sua sopa...”. Ainda bem que, na minha sopa, ela não pousou, ou seu destino teria sido muito pior porque Nicole doesn’t share food (entendedores entenderão – veja Friends). Em compensação, ela atormentou tanto a minha noite que mal consegui dormir.

E tinha tudo pra ser uma noite tranquila. Estava fazendo meus rituais antes de deitar: um pouquinho de yoga e meditação pra relaxar. Foi aí que começou. Zum, zum, zum... Tentei utilizar o procedimento padrão pra lidar com os problemas. Etapa um: ignorar pra ver se passa. Respirei fundo e tentei me concentrar no mantra. A mosca me rondava, provocativa, voava rente ao meu ouvido, roçava minha pele e me dava comichões. Me acostumei a meditar com abelhas: seu caminhar suave por minhas pernas e mãos faz uma cosquinha gostosa e me dá uma sensação de carinho. A mosca, não. Ela é estabanada, grosseira, incômoda ao limite. Fico pensando que tem gente meio mosca também: só serve pra encher o saco.

Bem, com muito sacrifício, consegui concluir a meditação e fui deitar. A mosca não desistiu: eu continuava ouvindo seu zumbido perto de mim e de vez em quando sentia suas patinhas nojentas em alguma parte do meu corpo, mesmo coberta. Deus, eu só queria dormir! A janela estava aberta, por que ela não ia embora? Pensei em pegar o inseticida, mas não gosto de usá-lo porque o cheiro é horrível e tóxico. Fora a preguiça de levantar. De qualquer forma, também não conseguia pegar no sono.

Liguei a luz e tentei ler um pouco. De canto de olho, observava o voo torto da minha inimiga alada. Às vezes ela tinha a audácia de pousar num canto e ficar ali, me encarando, como quem diz: “Você não me pega!”. Quando eu tentava atingi-la, fugia prontamente. Tentei esmagar, capturar com as mãos e até fechar o livro pra prender o inseto, no entanto, nada funcionava. Mais uma vez, ela pousou e nos olhamos. Entendi que era ela ou eu. Fui pegar o inseticida. Eu ia dormir respirando toxina, mas aquele bicho precisava morrer!

Dei umas duas borrifadas perto de onde estava. Ela sumiu. Caiu? Baixei o olhar: estava se contorcendo no chão, perto da cama. Confesso que sorri, vitoriosa. Vem zumbir no meu ouvido agora, filha da puta! Peguei um pedaço de papel e esmaguei, pressionando seu corpo contra o envelope. Saiu sangue. Vermelho. Fiquei extasiada. Deve ser uma sensação próxima à dos serial killers, que gosto tanto de estudar. O poder sobre a vida é um troço perigoso: a usar com moderação.

Borrifei odorizante no quarto pra disfarçar o cheiro de inseticida. Deitei e dormi na mais profunda paz. Amanhã, quem sabe, não volta a temporada das abelhas? Mas, se as moscas retornarem, já estou preparada. Vem, chuva de gafanhotos! Vem, meteoro! Acho que quem sobreviver a 2020 não morre mais: vamos garantir resiliência suficiente pra eternidade.

Culposo

Eu não tenho culpa
Ela tava bêbada
Eu não tenho culpa
Ela tava pedindo 
Eu não tenho culpa
Ela bem que gostou
Eu não tenho culpa
Ela é louca
Eu não tenho culpa
Olha a roupa dela
Olha essas fotos sensuais
Foi fazer o que lá?
Tá reclamando de quê?
Eu não tenho culpa
Engole o choro
Abre o olho
E fecha as pernas
Da próxima vez

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Balanço

A menina balança
Dança com o vento
Canta
Uma melodia melancólica

Não é triste
Sua solidão
É tranquila
Suave
Leve
Como o discreto
Ranger do balanço
Que suporta
O peso
Dos seus sonhos
Frágeis

Ela inspira paz
E expira poesia

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Sobre muros e pontes

Pedra sobre pedra 
Construí meus muros
Do alto do meu castelo
Me senti muito seguro
A vista era linda
E a solidão profunda
Cansei dessa vida
A revolução fecunda
Recolhi as pedras
Dos muros que demoli
E ergui as mais belas pontes

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Sem Frescura

Larga do meu pé
Que eu tenho chulé
Não sou donzela
Tô cheia de remela
Esqueci de depilar
O cabelo tá sem lavar
A unha mal feita
Cansei de tentar ser perfeita

Mas se você quiser vir
Pode vir
Tem vinho na geladeira
Conversa, muita zoeira
A gente pede uma pizza
Vai ser uma delícia

Com você não tem hora
Não se apresse em ir embora
Fica pela companhia
Troca a noite pelo dia
A gente sai pra olhar a lua
Se me animar eu fico nua
E sorrio encabulada
Com aquela sua olhada
Meio encantada
Meio safada 

Gosto quando não diz nada
Vem e não me exige nada
Faço até piada
Com seu jeito meio sério
Meio etéreo
Esse ar de mistério
Mistério sem mentira

Então vem pela aventura
Quem sabe a noite não dura
E a gente fica por aqui mesmo
Nem que seja pra comer torresmo

Vem se pré-requisito
Que a gente é bicho esquisito
Mas se entende
E até se surpreende
Com o rir da vida
O descansar da lida
A leveza
E a beleza
Da nossa própria natureza