segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Imprecisão


Eu não tenho
A resposta certa
A palavra exata
O saber preciso
Pro engano
Ou desengano
Pra dor
Ou desamor

É no erro
Que me construo
É da ferida
Que me refaço
Do passado
Eu me despeço
Seguro a lágrima
Exponho o verso

Quando entram
Os sentimentos
A razão
Perde a vez
Dou vazão
Ao talvez
E aceito
O que der
E vier

Não tenho pena
De alma penada
Quando assombrada
Mudo de casa
O coração
Nada é em vão
Tudo é projeto
Tudo tem jeito
No infinito
Do tempo incerto

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Professor na pandemia

 

Professor na pandemia

É estresse todo dia

Já rezei Ave Maria

Mas não passa essa agonia

 

Thiago, você taí?

Tá dando pra me ouvir?

Ih, acho que eu caí

Tô entrando, peraí

 

É sessão de espiritismo

Chama logo o exorcismo

Caiu mesmo ou é cinismo?

Fique com o seu achismo

 

Já briguei com a aluna

E nem tenho mais coluna

Bom dia, bom dia, Bruna!

Cê não era da oura turma?

 

Prova que se multiplica

Exercício que complica

Trabalho dignifica

Mas vê se eu fico rica!

 

Câmera desativada

Ninguém ri da minha piada

Profa, cê tá chateada?

Que nada, que nada!

 

O sorriso é amarelo

O afeto é sincero

Sofro com muito esmero

E impaciente espero

Férias, pra que te quero?

domingo, 22 de novembro de 2020

Esquadrão COVID


Atenção, rapaziada
Bora aglomerar
Seguindo a manada
Pra COVID espalhar

Quem tem medo
Quem tem medo
É coisa de marica
Não tem nenhum segredo
Mais mole que o zika

Fazer festa pode sim
Lotar bar pode também
Num dia de sol assim
Vamo pra praia, meu bem 

É matar e morrer
Pela nossa liberdade
Bota logo pra foder
Essa porra de cidade

Nosso histórico de atleta
É o que vai nos salvar
Vocês é que são pateta
De em casa ficar

Usar máscara certinho
É coisa de viadinho
Penduro logo no queixo
Quer me abraçar eu deixo

Nós não temo paciência
Presse papo de ciência
Por favor tenha a decência
Somo os rei da coerência

Mas pra que tanto alarde
É só uma gripezinha
Vocês é tudo covarde
Parece minha vozinha

Pensa na economia
Somo homi de família
Em defesa da vida
Dos que têm grana na lida

Passa álcool na mão
É quem tem o cu na mão
No meio da confusão
Nós segue o capitão

Matamo o vírus na bala
Ou batemo com a Bíblia
Não precisa de vacina
Nós temo a cloroquina

Nossa bandeira
Jamais será vermelha
Se virou caveira
É porque tá velha

Olha só que legal
O ranking internacional
Agora que tal
O extermínio mundial

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Questão de pele

Queria entender

Por que você me fere

É triste saber

Que é uma questão de pele

Minha pele

Te repele?

Ponha-se no meu lugar

Você tem que batalhar

Pro que eu tenho conquistar

 

Meu ponto de partida

É mais longe do que o seu

Meu ponto de vista

Vai mais longe do que o seu

Seu mundo é limitado

Você vê tudo quadrado

Eu não me sinto julgado

Pois você é o condenado

 

E se sente no direito

De não ter nenhum respeito

Espalhar seu preconceito

Espelhar a ignorância

Tenha santa paciência

Nem um pingo de decência

Parece até demência

Essa sua incoerência

 

Ainda bem

Que não sou seu refém

E vou além

Da sua limitação

Com a minha ação

E a nossa militância

Então faça-me o favor

Do meu valor

Eu que tenho consciência

Você não sabe

Ele não cabe

Na sua caixinha

Tão fechadinha

Pequeninha

De racista

sábado, 14 de novembro de 2020

Culposo

Eu não tenho culpa
Ela tava bêbada
Eu não tenho culpa
Ela tava pedindo 
Eu não tenho culpa
Ela bem que gostou
Eu não tenho culpa
Ela é louca
Eu não tenho culpa
Olha a roupa dela
Olha essas fotos sensuais
Foi fazer o que lá?
Tá reclamando de quê?
Eu não tenho culpa
Engole o choro
Abre o olho
E fecha as pernas
Da próxima vez

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Balanço

A menina balança
Dança com o vento
Canta
Uma melodia melancólica

Não é triste
Sua solidão
É tranquila
Suave
Leve
Como o discreto
Ranger do balanço
Que suporta
O peso
Dos seus sonhos
Frágeis

Ela inspira paz
E expira poesia

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Sobre muros e pontes

Pedra sobre pedra 
Construí meus muros
Do alto do meu castelo
Me senti muito seguro
A vista era linda
E a solidão profunda
Cansei dessa vida
A revolução fecunda
Recolhi as pedras
Dos muros que demoli
E ergui as mais belas pontes